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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Mais uma vez Martha Medeiros


Foi publicado no jornal "O Globo" (13/02/2011) um texto que achei muito oportuno da escritora Martha Medeiros - uma das minhs preferidas, como já mencionei aqui. Copiarei na íntegra para vocês refletirem também:

"Você, modo de usar

Quando caminho pelas ruas da cidade, ou mesmo quando circulo de carro, reparo em pequenos pontos comerciais em construção e, na hora, penso: tomara que seja uma livraria, tomara que seja uma papelaria, tomara que seja uma galeria de arte, tomara que seja um bistrô, tomara que seja uma floricultura. Vou acompanhando a obra com expectativa, até que um dia os tapumes são retirados e shazam: é mais uma farmácia.

Remédio não é sorvete, não é banana, não é pãozinho. Mas o povo se acostumou a ingerir goela abaixo o que lhe sugerem, sem receita, sem critério, e a indústria farmacêutica e seus pontos de distribuição prosperam.

Conversava outro dia com uma amiga endocrinologista e falávamos justamente sobre como tantas doenças poderiam ser prevenidas através de simples mudança de hábitos. Ninguém nega a importância de uma campanha de prevenção contra o uso do crack, por exemplo, mas há um número ainda maior de pessoas se viciando em gordura, evitando legumes, se entupindo de refrigerantes, não dando atenção aos produtos orgânicos, abusando do sal, do açúcar e das frituras. Seria igualmente progressista uma campanha que alertasse para os efeitos colaterais de se comer errado.

Esse é só um exemplo de como a falta de qualidade de vida pode adoecer e até matar. A causa de óbitos geralmente é infarto, câncer, infecção generalizada, falência múltipla dos órgãos, mas algumas destas doenças tendem a iniciar décadas antes, por meio de uma rotina de muito estresse, ansiedade, angústia emocional e neuroses não tratadas. Negativismo, raiva, frustração, nada disso colabora com o nosso metabolismo. É aí que pequenas atitudes podem fazer diferença, como praticar atividades físicas, buscar um recurso para relaxamento (ioga, meditação, terapia, religião, massagem), cultivar amigos, dormir bastante, usar filtro solar, cuidar da postura, beber muita água, controlar o peso, não fumar, não beber em excesso, fazer check ups periódicos - e não se drogar, lógico. Os médicos têm batido nessa tecla com insistência, mas ainda há quem considere esse blablablá improdutivo ou politicamente correto demais.

Não tem nada a ver com politicamente correto, e sim com inteligência. E inteligência não se vende em frascos.

Farmácias comercializam produtos de primeira necessidade. Sem elas, não teríamos acesso a medicamentos fundamentais para nossa saúde mentl e física, devidamente prescritos, mas precisamos de tantas Brasil afora? Creio que teríamos uma sociedade bem mais saudável se a população contasse com um maior número de pontos de venda de livros, sucos, flores, livros, discos, bicicletas, livros, frutas, bolas de futebol, raquetes de frescobol, livros, instrumentos musicais, sapatilhas, livros, livros e, claro, livros".

Preciso comentar alguma coisa? Ah, sim! Preciso. Há poucas semanas vi uma reportagem na TV dizendo que o Rivotril só perde em número de vendas para as pílulas anticoncepcionais. Fico me questionando o motivo de tanta gente precisar de Rivotril...

domingo, 19 de setembro de 2010

Reflexões de Martha Medeiros


Não é segredo para ninguém que eu gosto (e muito) dos textos da Martha Medeiros, mas para começar bem a semana deixo algumas citações especiais que eu adoro:

"Faço menos planos e cultivo menos recordações. Não guardo muitos papéis, nem adianto muito o serviço. Movimento-me num espaço cujo tamanho me serve, alcanço seus limites com as mãos, é nele que me instalo e vivo com a integridade possível. Canso menos, me divirto mais, e não perco a fé por constatar o óbvio: tudo é provisório, inclusive nós".


"Assim como protegemos nossa felicidade, temos também que proteger nossa infelicidade. Não há nada mais desgastante do que uma alegria forçada. Se você está infeliz, recolha-se, não suba ao palco. Disfarçar a dor é dor ainda maior".


"Vamos deixar para sofrer pelo que é realmente trágico, e não por aquilo que é apenas um incômodo, senão fica impraticável atravessar os dias".


"Livrar-se de uma lembrança é um processo lento, impossível de programar. Ninguém consegue tirar alguém da cabeça na hora que quer, e às vezes a única solução é inverter o jogo: em vez de tentar não pensar na pessoa, esgotar a dor. Permitir-se recordar, chorar, ter saudade. Um dia a ferida cicatriza, e você de tão acostumada com ela, acaba por esquecê-la. Com fórceps é que a criatura não sai".


Ótima semana a todos com boas vibrações!!!


P.S.: Muito se falou sobre o lançamento do filme "Nosso Lar", eu assisti e recomendo! É bom para refletirmos sobre nossa existência terrena e nossas atitudes.
Até mais...

domingo, 30 de maio de 2010

Saúde mental


O dia de domingo, normalmente, é um dia contraditório: algumas pessoas amam, outras odeiam! Muitas acham que é um dia nostálgico, outras o consideram parado, enquanto outras aproveitam para descansar e relaxar.
Seja qual for o significado do domingo para você, leitor desse blog (tem algum leitor aqui? Rs), a usar um tempinho desse dia para refletir sobre a saúde mental...
Acredito que a mente comanda 99% das nossas funções corporais: uma mente triste, preocupada, desajustada, com certeza emanará essas energias para suas células, e consequentemente, sua função metabólica será alterada formando então o que chamamos de doença física.
Por sua vez, pensamentos de positividade, otimismo, alegria fazem exatamente o mesmo, só que influenciam as células a metabolizarem saúde. E não é apenas isso, o fato de ser uma pessoa flexível, disponível a mudar já constitui uma forma de manutenção da saúde: todos temos problemas, mas a forma de lidarmos com eles é que nos transformam em pessoas doentes ou saudáveis.
Como é difícil transformar nossos pensamentos... Sim, eu sei, mas vamos exercitar! Os florais, a aromaterapia, a cromoterapia, entre outras terapias podem ajudar nesse aspecto, mas hoje, deixo um texto da escritora Martha Medeiros que saiu hoje na Revista do jornal "O Globo" aqui do Rio de Janeiro:

"Saúde Mental

Acabo de saber da existência de um filósofo grego chamado Alcméon, que viveu no século VI a.C., e que, certa vez, disse que saúde é o equlíbrio de forças contraditórias.
O psicanalista Paulo Sergio Guedes, nosso contemporâneo, reforça a mesma teoria em seu livro ("A paixão, caminhos & descainhos", em que ele discute os fundamentos da psicanálise). Escreve Guedes: 'A saúde constitui sempre um estado de equilíbrio instável de forças, enquanto a doença traz em si a ilusória sensação de estabilidade e permanência'.
Não sei se entendi direito, mas me pareceu coerente. O sujeito de boa cuca não é aquele que pensa de forma militarizada. Não é o que nunca se contradiz. Não é o cara regido apenas pela lógica e que se agarra firmemente em suas verdades imutáveis. Esse, claro, é o doente.
Do nascimento à morte, há uma longa estrada a ser percorrida. Para atravessá-la, recebemos uma certa munição no reduto familiar, mas nem sempre é a munição que precisávamos: em vez de nos darem conhecimento, nos deram regras rígidas. Em vez de nos ofertarem arte, nos deram apenas futebol e novela. Em vez de nos estimularem a reverenciar a paixão e o encantamento, nos adestraram para ter medo. E lá vamos nós, vestidos com a camisa de força emocional, encarar os dias em total estado de insegurança, desprotegidos para uma guerra que já começa dentro da própria cabeça.
Armados até os dentes contra qualquer instabilidade, como gozar a vida?
A paz que tanto procuramos não está na previsibilidade e na constância, e sim no reconhecimento de que ambas inexistem: nada é previsível nem constante. E isso enlouquece a maioria das pessoas. Quer dizer que não temos poder nenhum? Pois é, nenhum.
É um choque. Mas o segredo está em acostumar-se com a ideia. Só então é que se consegue relaxar e se divertir.
Ou seja, a pessoa de mente saudável é aquela que, sabedora da sua impotência contra as adversidades, não as camufla, e sim as enfrenta, assume a dor que sente, sofre e se reconstrói, e assim ganha experiência para novos embates, sentindo-se protegido apenas pela consciência que tem de si mesmo e do que a cerca - o universo todo, incerto e mágico.
Acho que é isso. Espero que seja isso, pois me parece perfeitamente curável, basta a coragem de se desarmar. O sujeito com a mente confusa é um cara assustado, que se algemou em suas próprias convicções e tenta, sem sucesso, se equilibrar em um pensamento único, sem se movimentar.
Já o sadio baila sobre o precipício". (Martha Medeiros)

E com as palavras maravilhosas de Martha, desejo a todos uma excelente semana!

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Espírito aberto!


Manter o espírito aberto é algo de muita importância para sermos felizes. Inserir novidades em nossa vida, ousar, criar, inventar... Verbos que se relacionam com uma palavrinha chamada "mudança".
A mudança pode ser tanto para situações pequenas, como simples hábitos, ou para situações maiores, que envolvam trabalho, por exemplo. Como é bom ter CORAGEM para mudar o que não está funcionando... O motivo de não conseguirmos mudar pode ser justamente o medo... Temos medo de que o novo possa ser pior se comparado ao o velho ruim ao qual já estamos acostumados, ou ainda, medo de abalar nossa "segura estrutura", a qual construímos desde que nascemos.

Sugiro que pensemos nisso durante a semana... Temos algo que desejamos mudar? O que poderíamos fazer de diferente para sermos mais felizes? Ou ainda, sermos mais livres?

Segue um texto da Martha Medeiros tirado do livro Doidas e Santas de 2008.

"Balançando estruturas

Uma amiga minha vive dizendo que odeia amarelo, que prefere cianureto a usar roupa amarela. Quem a conhece já a ouviu dizer isso mil vezes, inclusive seu namorado. Pois uns dias atrás ela me contou que esse seu namorado chegou em casa e, mesmo os dois estando a uma semana sem se ver, brigaram nos cinco primeiros minutos de conversa e ele foi embora. 'Mas o que aconteceu?', perguntei. 'E eu sei lá', me respondeu ela. 'Estávamos morrendo de saudades um do outro, mas começamos a discutir por causa de uma bobagem'. Eu: 'Que bobagem?'. Então ela me disse: 'Você não vai acreditar, mas ele ficou desconcertado por eu estar usando uma camiseta amarela'.


Ora, ora. Era a oportunidade para eu utilizar meus dons de psicóloga de fundo de quintal. Perguntei para minha amiga: 'Quer saber o que eu acho?'. A irresponsável respondeu: 'Quero'. Mal sabia ela que eu recém havia assistido a uma palestra sobre armadilhas da tão prestigiada estabilidade. Arregacei as mangas e mandei ver.


Você está namorando o cara há pouco tempo. Sabemos como funcionamos esses primeiros encontros. Cada um vai fornecendo informações para o outro: eu adoro rock, eu tenho alergias a frutos do mar, tenho um irmão com quem não me dou muito bem, prefiro campo em vez de praia, não gosto de teatro, jamais vou ter uma moto, não uso roupa amarela. A gente então vai guardando cada uma dessas frases num baú imaginário, como se fosse um pequeno tesouro. São os dados secretos de um novo alguém que acaba de entrar em nossa vida. Assim vamos construindo a relação com certa segurança, até que um belo dia nosso amor propaga as maravilhas de uma peça de teatro que acabou de assistir, ou sugere vinte dias de férias numa praia, ou usa uma roupa amarela. Pô, como dá para confiar numa criatura dessas?


Pois dá. Aliás, é mais confiável uma criatura dessas do que aquela que se algemou em meia dúzia de "verdades" inabaláveis, que não muda jamais de opinião, que registrou em cartório sua lista de aversões. Vale para essas bobagens, e vale também para as coisas mais sérias, como posicionamentos sobre o amor e o trabalho.
Mudanças não significam fragilidade de caráter. É preciso ter uma certa flexibilidade para evoluir e se divertir com a vida. Mais ainda: essa flexibilidade é fundamental para manter nossa integridade, por mais contraditório que pareça. Me vieram agora à mente os altos edifícios que são construídos em cidades propensas a terremotos, que mantêm em sua estrutura um componente que permite que se movam durante o abalo. Um edifício que balança! Se ele não se flexibilizar, a estrutura pode ruir.

O fato de transgredirmos nossas próprias regras só demonstra que estamos conscientes de que cada dia aprendemos um pouco mais, ou desaprendemos um pouco mais, o que também é amadurecer. Não estamos congelados em vida. Podemos mudar de idéia, podemos nos representar ao mundo, podemos nos olhar no espelho de manhã e dizer: bom dia, muito prazer. Ninguém precisa ficar desconcertado diante de alguém que se desconstrói às vezes.


Eu também não gosto de roupa amarela. No entanto, hoje de manhã saí com um casaco amarelo canário! Tenho há mais de dez anos e quase nunca usei. Pois hoje saí com ele para dar uma volta e retornei para casa sendo a mesmíssima pessoa, apenas um pouco mais alegre por ter mudado algo, por ter me sentido diferente de mim mesma, o que é vital uma vez ao dia".


Fonte: MEDEIROS, M. Doidas e santas. Porto Alegre: L & PM, 2008. 232p.

Tenham todos uma excelente semana!!!!

domingo, 20 de dezembro de 2009

Natal...


Quem me conhece, ou acompanha esse blog, sabe que sou fã dos textos da Martha Medeiros. Ela é uma poeta, cronista e romancista gaúcha, e escreve semanalmente para os jornais "Zero Hora" (Porto Alegre) e "O Globo" (Rio de Janeiro).
E, para refletirmos sobre o Natal, deixo uma crônica dela, retirada do livro "Doidas e Santas" (2008).
Espero que gostem!

"O Espírito da coisa:
Você sempre pega o espírito da coisa? Geralmente o espírito da coisa é algo que fica subentendido, só as almas atentas conseguem captá-lo. A verdade é que, em um mundo cada vez mais pragmático, é difícil pegar o espírito da coisa, seja que coisa for essa.
O que dizer então do espírito de Natal? Antes ele entrava no ar assim que dezembro iniciava. O espírito desse mês, para quem foi criança em outros tempos, era de pura magia. O Natal, que demorava tanto para chegar, estava batendo à porta. "Quantos dias faltam, mãe?" "Agora falta pouco, querida." "Quanto?" "Uns 20 dias." "Tudo isso!!!!"
Mas a gente sabia que era pouco se comparado à longa espera de um ano inteiro. Em maio, junho, julho, o Natal ainda estava por perder de vista. O Natal era o arremate do calendário, era a compensação por tanto estudo e provas na escola, era o prêmio por termos nos comportado bem, era a hora de colocar uma roupa bonita e ter algum desejo atendido, era hora de comer umas delícias diferentes, de rezar, de acreditar em todos os sonhos. O céu ficava mais azul, as estrelas davam cria. Então finalmente chegava dia 24. A empregada era liberada logo após o almoço, o pai voltava mais cedo para casa e nenhum moleque reclamava de ir pro chuveiro, até gostava. Já de banho tomado, era hora de esperá-lo. Ele. O verdadeiro deus de toda criança, Papai Noel.

Hoje mal entra dezembro - e com ele, trovoadas - e os shoppings lotam, o trânsito entope, os filhos pedem coisas caríssimas e ganham antes mesmo da noite feliz. Comprar, comprar, comprar. Você, meio sem grana, faz o que pode. Os outros, meio sem nada, você faz que não vê. Mas eles estão entre nós: crianças pedindo um lápis de presente, pedindo colchão de presente, sonhando com o primeiro iogurte de suas vidas. E a gente voando de um lado para o outro, sem tempo para eles.

Isso tudo vai até dia 24, quando dezembro acaba. Ao menos este dezembro insensato, consumista, ateu, que dura 24 dias febris, em que todos correm, todos estão atrasados, todos tem compromissos inadiáveis. Uma amiga escreveu no auge do estresse: "Pensar que o próximo será daqui a um ano é a melhor parte da história".

Antes de começar a contagem regressiva para o próximo, temos o dia 25. Um feriado, uma trégua. As lojas estão todas, todinhas fechadas. Sobrou alguma coisa da ceia para beliscar na geladeira. Você vai sentir sede de suco natural, de água gelada. Vai colocar música para tocar, vai vestir uma camiseta limpa. Você não tem nada para fazer, nenhum motivo para tirar o carro da garagem, nenhuma razão para procurar vaga para estacionar. Hoje você vai andar a pé, no máximo de bicicleta. Vai falar mais pausadamente. Dia 25 é dia de caminhar devagar, de chinelo ou pés descalços. Dia de olhar bem fundo nos olhos do porteiro que está trabalhando, do motorista de ônibus que está trabalhando, e desejar a eles um feliz Natal prá valer. Com sentimento. Um sentimento que não seja medo nem angústia.

Paz.

É o dia 25 que nos restou para isso. Um dia para sairmos de casa apenas para ir até alguém que nada possui e ofertar um pedaço de bolo, uma barra de chocolate, um travesseiro, um sabonete, uma bola, qualquer coisa que signifique uma verdadeira extravagância diante de tanta miséria. Terminou a histeria coletiva, terminou a festa, terminou a semana. É no dia 25, antes que tudo se reinicie, que você poderá encontrar o verdadeiro espírito da coisa. Não deixe que ele escape".


Feliz Natal para todos!!!!

domingo, 18 de outubro de 2009

Simplicidade e autoconhecimento


O autoconhecimento pode ser definido como conhecimento de si próprio; alguns filósofos , como Platão, diziam que o autoconhecimento é uma conquista ou realização para se adquirir saúde e liberdade.
Realmente a solução para muitos dos nossos problemas pode ser encontrada através do autoconhecimento: apenas nós mesmos podemos saber o que queremos fazer de nossas vidas, basta termos tempo para nos observarmos e escutarmos nosso corpo e nosso coração.
Ultimamente, porém, vivemos focados em um mundo externo, que por sua vez exige uma altíssima produção no trabalho, uma grande preocupação com a aparência física, ou seja, um mundo que precisamos ter e parecer. E em que lugar fica o nosso ser??? Ah, o ser sempre acaba ficando para depois... primeiro precisamos arrumar um bom emprego, comprar uma bela casa, o carro do ano, precisamos ser modelos de capas de revista para achar o parceiro (a) ideal... são tantas as tarefas... que podem favorecer o cansaço, o estresse emocional, anisedade e por fim as somatizações no nosso organismo.
Mas se olhássemos mais para as nossas verdadeiras necessidades, poderíamos perceber que não precisamos de muito para sermos felizes... recomendo que comecemos a focar em coisas mais simples: em ajudar alguém com dificuldades (caridade não apenas material, mas principalmente moral), em dar gargalhadas com as pessoas que amamos (ou por que não dividir nossas lágrimas também?), em um abraço, em um beijo, em um sorriso, em um passeio pela natureza, em comer brigadeiro na colher, em ouvir uma música que realmente gostamos, em cantar... enfim, em descobrir que não precisamos de muita coisa material para nos sentirmos realizados.

Para finalizar, um texto da escritora Martha Medeiros sobre autoconhecimento:

Não sei o que está acontecendo comigo, diz a paciente para o psiquiatra.

Ela sabe.

Não sei se gosto mesmo da minha namorada, diz um amigo para outro.

Ele sabe.

Não sei se quero continuar com a vida que tenho, pensamos em silêncio.

Sabemos, sim.

Sabemos tudo o que sentimos porque algo dentro de nós grita. Tentamos abafar esse grito com conversas tolas, elucubrações, esoterismo, leituras dinâmicas, namoros virtuais, mas não importa o método que iremos utilizar para procurar uma verdade que se encaixe em nossos planos: será infrutífero. A verdade já está dentro, a verdade se impõe, fala mais alto que nós, ela grita.

Sabemos se amamos ou não alguém, mesmo que esteja escrito que é um amor que não serve, que nos rejeita, um amor que não vai resultar em nada. Costumamos desviar esse amor para outro amor, um amor aceitável, fácil, sereno. Podemos dar todas as provas ao mundo de que não amamos uma pessoa e amamos outra, mas sabemos, lá dentro, quem é que está no controle.

A verdade grita. Provoca febre, salta aos olhos, desenvolve úlceras. Nosso corpo é a casa da verdade, lá de dentro vêm todas as informações que passarão por uma triagem particular: algumas verdades a gente deixa sair, outras a gente aprisiona e finge esquecer. Mas há uma verdade única: ninguém tem dúvida sobre si mesmo.

Podemos passar anos nos dedicando a um emprego sabendo que ele não nos trará recompensa emocional. Podemos conviver com uma pessoa mesmo sabendo que ela não merece confiança. Fazemos essas escolhas por serem as mais sensatas ou práticas, mas nem sempre elas estão de acordo com os gritos de dentro, aquelas vozes que dizem: vá por este caminho, se preferir, mas você nasceu para o caminho oposto. Até mesmo a felicidade, tão propagada, pode ser uma opção contrária ao que intimamente desejamos. Você cumpre o ritual todinho, faz tudo como o esperado, e é feliz, puxa, como é feliz. E o grito lá dentro: mas você não queria ser feliz, queria viver!

Eu não sei se teria coragem de jogar tudo para o alto.

Sabe.

Eu não sei por que sou assim.

Sabe.


terça-feira, 22 de setembro de 2009

Amizade: como é bom ter amigos!!!


Estudos científicos nos mostram que fazer amigos, e manter as amizades faz bem a saúde! As verdadeiras amizades nos proporcionam trocas de experiências, apoio emocional, momentos de descontração, carinho e cumplicidade.
Portanto, é fundamental a nutrição dos relacionamentos entre amigos.

Para homenagear meus queridos amigos, e para refletirmos sobre esse assunto, posto aqui um texto da escritora Martha Medeiros, denominado
AMIZADE SEM TRATO:

"Dei para me emocionar cada vez que falo dos amigos. Deve ser a idade, dizem que a gente fica mais sentimental. Mas é fato: quando penso no que tenho de mais valioso, os amigos aparecem em pé de igualdade com o resto da família. E quando ouço pessoas dizendo que amigo, mas amigo meeeeesmo, a gente só tem dois ou três, empino o peito e fico até meio besta de tanto orgulho: eu tenho muito mais do que dois ou três. São uma cambada. Não é privilégio meu, qualquer pessoa poderia ter tantos assim, mas quem se dedica?

Fulano é meu amigo, Sicrana é minha amiga. É nada. São conhecidos. Gente que cumprimentamos na rua, falamos rapidamente numa festa, de repente até sabemos de uma fofoca pesada sobre eles, mas amigos? Nem perto. Alguns até chegaram a ser, mas não são mais por absoluta falta de cuidado de ambas as partes.
Amizade não é só empatia, é
cultivo. Exige tempo, disposição. E o mais importante: o carinho não precisa - nem deve - vir acompanhado de um motivo.

As pessoas se falam basicamente nos aniversários, no Natal ou para pedir um favor - tem que haver alguma razão prática ou festiva para fazer contato. Pois para saber a diferença entre um amigo ocasional e um amigo de verdade, basta sentir a falta da pessoa. E, estando juntos, tratarem-se bem.
Difícil exemplificar o que é tratar bem. Se são amigos mesmo, não precisam nem falar, podem caminhar lado a lado em silêncio. Não é preciso troca de elogios constantes, podem até pegar no pé um do outro, delicadamente. Não é preciso manifestações constantes de carinho, podem dizer verdades duras, às vezes elas são necessárias. Mas há sempre algo de sublime no ar entre dois amigos de verdade. Talvez
respeito seja a palavra. Afeto, certamente. Cumplicidade? Mais do que cumplicidade. Sintonia?

Acho que é
amor.

Oh, céus! Santa pieguice, Batman! Amor? Esta lengalenga de novo?
Sério, só mesmo amando um amigo para permitir que ele se jogue no seu sofá e chore todas as dores dele sem que você se incomode nem um pingo com isso. Só mesmo amando para você confiar a ele o seu próprio inferno. E para não invejarem as vitórias um do outro. Por amor, você empresta suas coisas, dá o seu tempo, é honesto nas suas respostas, cuida para não ofender, abraça causas que não são suas, entra numas roubadas, compreende alguns sumiços, só que liga quando o sumiço é exagerado. Tudo isso é amizade com trato. Se amigos assim entraram na sua vida, não deixe que sumam.

Porém, a maioria das pessoas não só deixa como contribui para que os amigos evaporem. Ignora os mecanismos da manutenção. Acha que amizade é algo que vem pronto e que é da sua natureza ser constante, sem precisar que a gente dê uma mãozinha. E aí um dia abrimos a mãozinha e não conseguimos contar nos dedos nem dois amigos para valer. E ainda argumentamos que a solidão é um sintoma dos dias de hoje, tão emergenciais, tão individualistas. Nada disso. A solidão é apenas um sintoma do nosso descaso".